Um conto de Marina Colasanti  escrito em segunda 28 setembro 2009 22:56

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Blog de contosdobrasil :CONTOS E ENCONTROS, Um conto de Marina Colasanti

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Análise do conto “O leite da mulher amada”              

   O conto pertence à obra Contos de Amor Rasgados de Marina Colasanti, sendo a autora brasileira uma das mais lidas e apreciadas. Nessa obra, os contos são curtos, de linguagem despojada e tocante, apresentando jogos de palavras, belas imagens e metáforas que são apenas sugeridas. No conto “O leite da mulher amada”, tais aspectos poderão ser vistos por meio da imagem feminina da personagem que assume o papel de esposa e amante, com o intuito, parcialmente verdadeiro, de agradar o marido.
   O intuito pode ser observado como parcialmente verdadeiro pelo fato de haver dois interesses no ato da esposa em dar o outro peito, para que um novo homem experimentasse o leite antes só do marido, de modo que ele não reclamasse mais de mamar um leite de má qualidade: “De agora em diante, um provador testaria o leite antes que chegasse aos lábios conjugais e, estando um seio ácido, recorreriam ao outro, para que nunca faltasse o precioso néctar a quem de direito.” (p.16)
. Ao deixar que o amante mamasse no outro peito a mulher assume o triângulo amoroso. Além de firmar uma nova postura.
   A primeira postura vista no conto é a de uma esposa tida como um objeto de uso, pois o marido tinha posse sobre ela: “a posse garantida e o uso constante tornavam o marido cada vez mais exigente” (p15). A visão de inferioridade se concretiza quando ela se submete ao esposo “com voz contrita lhe disse que sim, ele tinha razão” (p. 15), logo em seguida a mulher é diminuída perante a cabra, pois permitiu que o marido “bebesse leite por vezes mais áspero que o das cabras” (p. 15), sendo assim o leite da mulher é pior que o desse animal.
   Vê-se que, quando se fala em leite, a referência não é ao leite materno oferecido pelas fêmeas, e sim de algo que denota prazer e sedução. Logo no início do conto, tem-se a presença do verbo “mamar”, porém, assim como a denotação de leite, o ato de mamar sugere um envolvimento sexual entre três pessoas, pois há a presença de uma esposa/amante, do marido e por fim do amante, que ironicamente tem o papel apenas de experimentar o leite de uma das mamas.
  
A segunda postura assumida pela mulher é a de esposa infiel e a de mulher esperta, sendo capaz de planejar uma solução para a insatisfação e o ciúme do marido, porém, ela é quem seria beneficiada, pois nomeia seu amante para provar “o leite antes que ele chegasse aos lábios conjugais” (p. 16). Dessa maneira, a esposa infiel não precisaria mais esconder do marido a relação que possui com o amante. No momento em que se diz: “Agora um de cada lado, mamam os dois” (p. 16), o clímax do triângulo amoroso é alcançado.
   Na fala do narrador,“tomada de desespero, surpreendeu-se invejando as Amazonas” (p. 15), há uma referência à mitologia greco-latina, na qual a figura das Amazonas recebe uma nova leitura intensificando a segunda postura adotada pela mulher.
   Segundo Brandão (1999, p. 327), as guerreiras Amazonas eram mulheres muito fortes, capazes de ganhar guerras e resolver qualquer problema. Na Antiguidade Clássica, as Amazonas eram assassinas de homens, elas governavam por si mesmas. Como eram bélicas e usavam armas, segundo Thamos (2009), “
para melhor manejar o arco e a flecha, bem como a lança e o machado, armas em que eram destras, cortavam um dos seios”.

   A relação intertextual com a figura das Amazonas realça os sentidos que essa comparação suscita, pois se a mulher fosse como as Amazonas, teria apenas um seio, portanto o marido não teria mais ciúme. Além de que ela teria todo o poder sobre os dois homens, causa de seu problema. Dessa forma, a comparação pode possuir dois sentidos: o primeiro sugere o desejo de ter poder sobre os homens, não sendo mais submissa a eles, e o segundo é que se tivesse apenas um seio não teria mais as brigas conjugais causadas pelo ciúme.

Referências:

BRANDÃO, J. de S. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1999.

COLASANTI, M. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

THAMOS, Márcio. Amazonas: do mito greco-romano às lendas do novo mundo. Disponível em: http://neomondo.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=283:amazonas-do-mito-greco-romano-as-lendas-do-novo-mundo&catid=87:artigos&Itemid=89. Arquivo capturado em 26 de setembro de 2009.

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