O fazer literário de Aníbal Machado  escrito em quarta 09 dezembro 2009 11:10

Blog de contosdobrasil :CONTOS E ENCONTROS, O fazer literário de Aníbal Machado

GT4:Beatriz, Cristiane, Ricardo, Sara e Verônica.

     A obra literária de Aníbal Machado não é extensa, mas há em seu fazer literário uma interação entre prosa e poesia, seja pelo fracionamento dos enredos, seja pela crítica apresentada em suas obras ou ainda, pela rebeldia contra as regras.

    O autor da modernidade constrói suas personagens com uma linguagem clássica. Porém, também trabalha com metáforas e comparações. O real e o imaginário caminham juntos, dando equilíbrio às forças antagônicas. Além disso, sua prosa é carregada de ironia, causando, muitas vezes, uma expectativa de tensão.

     Já nos contos de Aníbal Machado, a linguagem é despojada. O autor faz uso de símbolos impregnados de dramaticidade, causando uma sensação de eterna busca, o que favorece o aproveitamento desses trabalhos para a arte cinematográfica.

     Com isso, a leitura de seus contos aguça nossa imaginação e no transcorrer dessa leitura é possível que o leitor se sinta parte da obra, pois acaba se apossando do sofrimento, da compaixão, da paz absoluta, porque a narrativa faz parte de sua história.

     Além da obra escrita, a contribuição de Aníbal vai do teatro ao cinema, do samba à música erudita, do folclore às artes plásticas, da política ao futebol (foi um dos fundadores do atlético, em 1908).

“Alguns poemas de Aníbal Machado vieram enriquecer o nosso patrimônio poético mais o que a abundante produção impressa de numerosos poetas tão frequentemente citados e recitados.”
Manuel Bandeira

 “Sob o ponto de vista intelectual, Aníbal representa para o Rio de Janeiro aquilo que Mário de Andrade significou para a São Paulo dos anos 30 e 40: um arregimentador animador cultural, introdutor das vanguardas poéticas, intelectual empenhado e partidário. Como escritor, porém, seu papel não é menos importante.”
Raúl Antelo

Alguns links:

pt.wikipedia.org/wiki/Aníbal_Machado

www.circuitoliberdade.mg.gov.br/.../artista-do-verbo-da-vida-anibal-machado.pdf

bibliotecadigital.unec.edu.br/ojs/index.php/unec02/article/.../324

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Trailer do conto de Roberto Drummond: "Demônio do meio dia"  escrito em domingo 20 dezembro 2009 17:42

GT4 - BEATRIZ, CRISTIANE, RICARDO, SARA E VERÔNICA

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Sérgio Faraco e sua obra - por Pedro Luso de Carvalho  escrito em segunda 14 dezembro 2009 18:20

Blog de contosdobrasil :CONTOS E ENCONTROS, Sérgio Faraco e sua obra - por Pedro Luso de Carvalho

GT6 - email para contato: jessikacardoso_15@hotmail.com

    O escritor Sergio Faraco ainda não integra a Academia Brasileira de Letras, mas pela importância de sua obra como contista, cronista, historiador, ensaísta e tradutor poderá ocupar uma vaga na Casa de Machado de Assis, onde duas de suas cadeiras estão sendo ocupadas por dois coestaduanos seus: Carlos Nejar e Moacyr Scliar. Ao ocupar uma cadeira na ABL a sua obra terá, sem dúvida, uma divulgação condizente com a importância de sua produção literária, e, com isso, os leitores sairão ganhando ao conhecê-la, como ganhará a cultura do nosso país.
    Não sei, por outro lado, qual poderá ser a reação do Sergio Faraco quando souber que estou iniciando este ‘movimento’ para que venha a concorrer a uma vaga, oportunamente, na Academia Brasileira de Letras. Provavelmente, não se sentirá confortável com esta iniciativa, mas mesmo assim não posso deixar de levar adiante este empreendimento.
    Por outro lado, por conhecer a obra do Sergio Faraco na sua integridade, sinto-me à vontade para dar início a esta empresa. Li cada um de seus livros, na medida em que iam sendo lançados. Mais ainda: fiz a releitura de muitos dos seus livros, e a cada nova leitura convencia-me mais ainda da maestria de Faraco, que, sem dúvida, é um dos que melhor representa o gênero conto na literatura brasileira, ombreando com os mais importantes escritores do conto sul-americano.
    Como a obra de Sergio Faraco é extensa, para divulgá-la usarei, em parte, a matéria que se encontra publicada, com o esmero que lhe é próprio, no seu site (SERGIO FARACO) , que se constitui num atalho para meu propósito. Começaremos, pois, com os traços biográficos:


    Sergio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. Nos anos 1963-5 viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito. Em 1968 casa-se em Alegrete com Ana Cybele Ferreira da Costa Milano, filha menor do poeta rio-grandense Antônio Milano. Em 1969 nasce sua primeira filha, Bianca. Em 1971 nasce sua segunda filha, Angélica. Em 1980 nasce seu terceiro filho, Bruno.


Passemos à cronologia de sua obra, prêmios e láureas:

1965
Começa a escrever para a Gazeta de Alegrete.

1968
Publica seus primeiros contos no Caderno de Sábado do Correio do Povo.

1970
Publica Idolatria, contos. Em concurso estadual de contos, obtém, com três trabalhos, os três primeiros lugares.

1974
Publica seu segundo livro, Depois da primeira morte, contos.

1975
Seu relato "Travessia" é incluído na antologia Os melhores contos brasileiros de 1974.

1978
No Rio de Janeiro, publica seu terceiro livro, Hombre, contos. Publica Urartu, história antiga do Oriente Próximo.

1980
No Rio de Janeiro, publica uma biografia de Tiradentes.

1982
Traduz, do uruguaio Mario Arregui, Cavalos do amanhecer. De parceria com Blásio Hickmann, publica um dicionário de autores rio-grandenses contemporâneos.

1984
No Rio de Janeiro, aparece seu quarto livro de contos, Manilha de espadas.

1985
Traduz, de Mario Arregui, A cidade silenciosa, contos; do argentino Mempo Giardinelli, Luna caliente / Três noites de paixão, novela; do venezuelano Eugenio Montejo, O poeta sem rio, poesia.

1986
Traduz, de Mempo Giardinelli, O céu em minhas mãos. Publica seu quinto livro de contos, a antologia Noite de matar um homem. O Instituto Estadual do Livro edita o fascículo Sergio Faraco, que focaliza a vida e a obra do autor.

1987
Publica os livros Doce paraíso e A dama do Bar Nevada, ambos de contos. Traduz A revolução de bicicleta, de Mempo Giardinelli.

1988
Recebe o Prêmio Galeão Coutinho, da União Brasileira de Escritores, conferido ao melhor livro de contos publicado no Brasil no ano anterior (A dama do Bar Nevada). Publica seu primeiro livro no exterior, Noche de matar un hombre, no Uruguai.

1990
Publica O chafariz dos turcos, crônicas. No Uruguai, são reunidas em livro as cartas que trocou com o escritor Mario Arregui, falecido em 1985: Mario Arregui & Sergio Faraco: Correspondencia. Publica O processo dos inconfidentes: verdade ou versão, ensaios.

1991
Publica seu sétimo livro de contos, Majestic Hotel. Traduz A longa viagem de prazer, contos do uruguaio Juan José Morosoli, e A história de Naná, do também uruguaio Carlos Maggi. Organiza e traduz, de parceria com Aldyr Schlee, a antologia de contos Para sempre Uruguai.

1992
Em Montevidéu, publica-se a segunda edição de Noche de matar un hombre. Traduz: Contos do país dos gaúchos, de Julián Murguía, Os demônios de Pilar Ramírez, de Jesús Moraes, e Bernabé, Bernabé!, de Tomás de Mattos, autores uruguaios, e Made in Buenavista, do argentino José Gabriel Ceballos. Em Alegrete, inaugura-se na Escola Estadual Tancredo de Almeida Neves a Biblioteca Sergio Faraco.

1993
Publica seu segundo livro de crônicas, A lua com sede. Traduz A menina que perdi no circo, da paraguaia Raquel Saguier, e O amigo que veio do sul , de Julián Murguía.

1994
Pelas crônicas de A lua com sede, recebe o Prêmio Henrique Bertaso, conferido pela Câmara Rio-Grandense do Livro, Clube dos Editores do Rio Grande do Sul e Associação Gaúcha de Escritores. Publica, como organizador, A cidade de perfil, crônicas de diversos autores. Traduz Caballero, do paraguaio Guido Rodríguez Alcalá, Vozes da selva, do uruguaio Horacio Quiroga, e A guerra das formigas, de Julián Murguía.

1995
Recebe o Prêmio Açorianos, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, pela organização de A cidade de perfil. Publica seu oitavo livro de ficção, reunindo todos os contos que escreveu: Contos completos.

1996
Pelo livro Contos completos, recebe novamente o Prêmio Açorianos. Traduz Noturnos e outros poemas, da uruguaia Idea Vilariño, e publica, como organizador, o volume Contos brasileiros, de diversos autores.

1997
Traduz Armadilha mortal, do argentino Roberto Arlt, e organiza os volumes Livro dos sonetos, de diversos autores, Livro das cortesãs, de diversos autores, Livro dos bichos, de diversos autores, I-juca- pirama, de Gonçalves Dias, A mensageira das violetas, de Florbela Espanca, Antologia poética, de Mario Quintana, Sonetos para amar o amor, de Luís de Camões, e O dinheiro, ensaio de Olavo Bilac.

1998
Traduz Contos italianos, de Máximo Gorki. Organiza: Todos os sonetos, de Augusto dos Anjos, Amor ao Brasil, do Visconde de Taunay, Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, Livro dos desaforos, de diversos autores, Livro do corpo, de diversos autores, e Shakespeare de A a Z, uma seleção das frases lapidares de William Shakespeare. Publica Dançar tango em Porto Alegre, coletânea de contos, e Gregos & Gringos, coletânea de crônicas, ambos em edição de bolso.

1999
É indicado como um dos "50 melhores contistas dos 500 anos do Brasil" em enquête do Jornal de Letras (Rio de Janeiro (6):10, fevereiro de 1999), dirigido por Arnaldo Niskier e Antonio Olinto. Traduz Uma estação de amor e Passado amor, novelas de Horacio Quiroga, São Manuel Bueno, mártir, de Miguel de Unamuno, e De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano, e organiza as coletâneas As árvores e seus cantores, de diversos autores, Decálogo do perfeito contista, de Horacio Quiroga e outros e As primaveras, de Casimiro de Abreu. Recebe o Prêmio Nacional de Ficção, atribuído pela Academia Brasileira de Letras à coletânea Dançar tango em Porto Alegre como a melhor obra de ficção publicada no Brasil em 1998. Em enquête promovida pela revista Aplauso (número 11), de Porto Alegre, entre críticos literários e professores de literatura, é escolhido como o quinto dos cinco nomes da literatura rio-grandense de todos os tempos, depois de Érico Veríssimo, Simões Lopes Neto, Dyonélio Machado e Mario Quintana.

2000
Um de seus contos, "Idolatria", é escolhido como um d'Os cem melhores contos brasileiros do século, coletânea publicada no Rio de Janeiro pela Editora Objetiva. Publica Viva o Alegrete!, coletânea de crônicas sobre sua cidade natal, em edição fora de comércio, e Rondas de escárnio e loucura, volume de contos, que recebe o troféu Destaque Literário (Obra de Ficção) da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (Juri Oficial), atribuído pela Rede Gaúcha SAT/RBS Rádio e Rádio CBN 1340. Em outubro, recebe da Prefeitura de Alegrete a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha.

2001
Publica, agora em edição comercial, as crônicas de Viva o Alegrete. Recebe o Prêmio Açorianos de Literatura pelo livro Rondas de escárnio e loucura. Publica, de parceria com o ex-piloto de competição Hugo Almeida, o manual O automóvel: prazer em conhecê-lo, cuja edição rapidamente se esgota.

2002
Recebe da Editora Nova Prova o troféu Escritor Homenageado. Publica seu livro de memórias, Lágrimas na chuva: uma aventura na URSS, e traduz O teatro do bem e do mal, de Eduardo Galeano. Recebe o troféu Destaque CGTEE/Correio Povo Melhor Sessão de Autógrafos da 48ª Feira do Livro de Porto Alegre, alusivo ao lançamento de Lágrimas na chuva.

2003
Lágrimas na chuva é indicado como o livro do ano pelo jornal Zero Hora, em sua retrospectiva de 2002, e eleito pelos internautas, no site ClicRBS, como o melhor livro gaúcho publicado no mesmo ano. Tem seus contos gravados em CD, com narração de Vergara Marques, em edição da Coleção Palavra, coordenada por Waldemar Torres. Traduz A galinha degolada e outros contos & Heroísmos: biografias exemplares, de Horacio Quiroga, e organiza O livro de Cesário Verde, do poeta português Cesário Verde. Recebe o Prêmio Erico Veríssimo, conferido pela Câmara Municipal de Porto Alegre, e o Prêmio Livro do Ano (Não-Ficção) da Associação Gaúcha de Escritores, por Lágrimas na chuva. Reedita-se sua tradução dos contos do uruguaio Mario Arregui, Cavalos do amanhecer. A partir de fevereiro, passa a publicar crônicas quinzenais no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

2004
Seu conto "Idolatria", incluído na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi, é interpretado pela atriz Marília Pêra no programa Contos da Meia-Noite, da TV Cultura de São Paulo. Publica a segunda edição ampliada de Contos completos, sendo agraciado com o Prêmio Livro do Ano no evento O Sul e os Livros, instituído pelo jornal O Sul, TV Pampa e Supermercados Nacional, e participa, com Armindo Trevisan e José Clemente Pozenato, da coletânea bilíngüe Dall’altra Sponda/Da outra margem, que recebe o Prêmio Destaque do Ano no mesmo evento.

2005
Publica Histórias dentro da História, de crônicas e ensaios.

2006
Publica O crepúsculo da arrogância, obra que reconstitui minuto a minuto o naufrágio do RMS Titanic.

2007
Assina contrato com a Rede Globo para a realização de uma microssérie baseada no conto Dançar tango em Porto Alegre, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Publica, como organizador, a coletânea Antologia de contistas bissextos, com 19 autores. Recebe o prêmio Livro do Ano - Categoria Não-Ficção, da Associação Gaúcha de Escritores, pelo livro O crepúsculo da arrogância, e o Prêmio Fato Literário 2007 - Categoria Personalidade, atribuído pelo Grupo RBS de Comunicações.

2008
Recebe a Medalha Cidade de Porto Alegre, outorgada pela Prefeitura Municipal - Administração José Fogaça. Mantém a coluna quinzenal em Zero Hora, iniciada em 2003.

    Esperamos, pois, o apoio de todos os escritores e leitores a esta campanha em favor da eleição de Sergio Faraco para a Academia Brasileira de Letras.

Referência: http://panorama-direitoliteratura.blogspot.com

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SÉRGIO FARACO - PERFIL  escrito em segunda 14 dezembro 2009 18:00

Blog de contosdobrasil :CONTOS E ENCONTROS, SÉRGIO FARACO - PERFIL

GT6 - email para contato: jessikacardoso_15@hotmail.com

Essa postagem é para enfatizar mais uma vez o trabalho do contista gaúcho Sérgio Faraco, gostaríamos de divulgar o site do autor onde encontram-se vários materias relacionados ao mesmo, como entrevistas, fotos, contos, biografia, entre outros. Fica abaixo o site para interesse de acesso visando um maior conhecimento de suas obras e seu talento, e também, segue uma síntese de sua história para um conhecimento prévio sobre a vida do autor, e abaixo um de seus contos sobre o gaúcho e seu cotidiano. 

SITE: http://www.sergiofaraco.com.br/

Sérgio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. De 1963 a 1965 viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito. Em 1988, seu livro "A Dama do Bar Nevada" obteve o Prêmio Galeão Coutinho, conferido pela União Brasileira de Escritores ao melhor volume de contos lançado no Brasil no ano anterior. Em 1994, com "A Lua com Sede", recebeu o Prêmio Henrique Bertaso (Câmara Rio-Grandense do Livro, Clube dos Editores do R.G.S. e Associação Gaúcha de Escritores), atribuído ao melhor livro de crônicas do ano. No ano seguinte, como organizador da coletânea "A Cidade de Perfil", fez jus ao Prêmio Açorianos de Literatura — Crônica, instituído pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Em 1996, foi novamente distinguido com o Prêmio Açorianos de Literatura — Conto, pelo livro "Contos Completos". Em 1999, recebeu o Prêmio Nacional de Ficção, atribuído pela Academia Brasileira de Letras à coletânea "Dançar Tango em Porto Alegre" como a melhor obra de ficção publicada no Brasil em 1998. Seus contos foram publicados nos seguintes países: Alemanha, Argentina, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Paraguai, Portugal, Uruguai e Venezuela. Reside em Porto Alegre.

 

Idolatria


"Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava:

— Caminho do diabo!

Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No pára-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus.

Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom.

— Puta merda.

Quis abrir a porta, ela trancou no barranco.

— Abre a tua.

A minha também trancava e ele se arreliou:

— Como é, ô Moleza!

Empurrou-a com violência.

— Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda.

Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão.

O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.

— Vamos com essas pedras!

Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.

— Não posso, estão enterradas.

— Ah, Moleza.

Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.

— Pai, pai, o caminhão tá afundando!

A cabeça dele apareceu entre as ervas.

— Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?

E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.

— Tá com fome?

— Não.

— Vem cá.

Tirou do bolso uma fatia de pão.

— Toma.

— Não quero.

— Toma logo, anda.

— E tu?

— Eu o quê? Come isso.

Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva.

— Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER*, eles puxam a gente.

Atirou a erva longe e entrou na cabina.

— Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?

Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona.

— Veste isso, vai esfriar.

A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes.

— Que bela figura.

A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso? Então agüentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez:

— Como é, vens ou não?

Aí eu fui."


*Sigla do departamento responsável pela conservação das estradas estaduais.

O texto acima, publicado em "Dançar Tango em Porto Alegre", L&PM Editora — Porto Alegre, 1998, consta também do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Italo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 423.

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Dalton no cinema  escrito em segunda 14 dezembro 2009 17:59

Blog de contosdobrasil :CONTOS E ENCONTROS, Dalton no cinema

FICHA TÉCNICA

Roteiro / direção
Joaquim Pedro de Andrade

Estória
Adaptação de contos de Dalton Trevisan

Produção
Indústria Brasileira de Filmes, Filmes do Serro – RJ

Montagem
Eduardo Escorel

Imagem
Pedro de Moraes

Música
Ian Guest

Cenários / figurinos
Anísio Medeiros


ELENCO

Lima Duarte
Carlos Diegues
Jofre Soares
Carmem Silva
Ítala Nandi
Cristina Aché
Dirce Migliaccio

O DIRETOR FALA SOBRE O ROTEIRO
Joaquim Pedro de Andrade


Fiz o filme com 16 contos tirados não apenas do livro Guerra Conjugal mas também de Novelas Nada Exemplares, Desastres do Amor, O Vampiro de Curitiba, Cemitério de Elefantes e O Rei da Terra. Ficou de fora só O Pássaro de Cinco Asas, que ainda não tinha sido publicado quando fiz o roteiro.

Os contos foram concentrados em três grupos distintos, uns vividos por Nelsinho, outros pelo Doutor Osíris e outros por um casal de velhos, Joãozinho e Amália, continuando uns o fim de outros, desenvolvendo-se alguns em montagem intercalada e fundindo-se outros, tudo sem separação marcada e sem menção dos diferentes títulos, de modo a dar maior unidade e fluência ao conjunto.

Nelsinho, criado por Carlos Gregório, ficou como protagonista dos contos "Na pontinha da orelha", com Elza Gomes e Cristina Aché, "Chapeuzinho Vermelho", com Wilza Carla, "As uvas" e "O roupão", fundidos, com Maria Lúcia Dahl e "A velha querida", com Maria Veloso, que encerra o filme.

O Doutor Osíris, vivido pelo Lima Duarte, ataca em "O anjo da perdição", com Analu Prestes, "Cafezinho com sonho", servido com Dirce Migliaccio, "Minha querida madrasta" e "Menino caçando passarinho", fundidos, com Ítala Nandi, mais "Os mil olhos do cego", com Carlos Kroeber.

O casal de velhos, Jofre Soares e Carmem Silva, usa material dos contos "Cena doméstica", "Um sonho de velho", "Alegrias de cego", "Eis a primavera", "Dia de matar porco" e "A sopa", em que a velha se rebela e passa de oprimida a opressora.

GT5: Diego, Fabrício, Hélio, Nelson, Robsom e Thiago

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